quinta-feira, 25 de setembro de 2008

câmara escura

mas
e quando por mais que digamos o mundo
ele não acontece?

eis-me aqui sentado
o mundo como entreposto dos ouvidos a cabeça entre as mãos nervosas
olho para um rio
digo que o caudal está a encher
mas há outras barragens outras carências energéticas a corromper a nascente
pego numa pedra toco-a acaricio-a lanço-a para longe
ao sentir a sua superfície lisa repetidamente amada
eu vejo
apesar de o rio ter um leito não me saciarei
apesar do caudal não terei um corpo à minha espera
apesar do tempo
apesar
do desejo e das mãos em punho as veias em evidência
as minhas palavras não conhecem outro ruído além do ranger de dentes

talvez com o chamamento encontre outro corpo
outra vocação ainda
talvez de tanto percorrerem uma pele imaginária ou um peito em expectativa
os dedos possam desenhar o rosto a uma página
tal como se desflora um sorriso
entre beijos
ou numa câmara escura

a voz
encontrá-la perfeitamente disposta na moldura
a respirar o mundo a recuperar do êxtase
abraçar o corpo levar o aroma o quarto a febre
ser louco e ser eterno
reconciliar-me com a chuva e com o granizo
abraçar-me faminto às rochas em brasa

saltar de olhos fechados com uma colisão nos meus braços


terça-feira, 11 de março de 2008

Renúncia



Do seu exílio, o poeta escrevia, áspera e lentamente, nas paredes cinzentas de cartão defumado que o separavam da cidade:

Este é o primeiro poema da minha vida.

Passando os dedos reciclados pelo vício da casa, dizia a si mesmo que aquelas eram apenas as primeiras janelas antes do quebrar da luz. Diante das muitas páginas rígidas e empilhadas na mesa precoce, abortou o plano indesejado e deixou a arte para o fim. O poeta, de voz em punho e tinta à flor da pele seca, declarou veementemente:

Este é o primeiro poema e a minha vida.


Do seu famoso exílio fabulosamente invejado nos jornais, o poeta batia à máquina para não agredir os transeuntes, que por acaso, só mesmo por embirrância, se tinham colocado a jeito, atravessados pela estrada. O poeta tomou então mais um pouco de café, antes de marcar o duelo seguinte. Como as palavras eram escassas, comprou algumas por atacado e digeriu-as aos poucos, uma letra por dia. O poeta esfomeado mastigava pacientemente as paredes da casa a olhar para o seu prato vazio. A sua dieta impedia-o de consumir interjeições ou sequer preposições. Ao poeta só lhe restavam os artigos e as letras fora do abrigo da lei. E cópulas, muitas cópulas em forma de vogal aberta diante do espanto da matiné. O poeta vestiu-se de vapor, colocou-se na varanda de onde via gigantes ao pôr-do-sol e disse, ousadamente, aos muitos pássaros na praça:

Esta é a primeira vida do meu poema.

Terminou então a sua lenta ruminância que o deixara nu, desceu pelo elevador para a rua inclinada, pegou numa cadeira à espera dos sinos do camião do lixo e de modo muito distraído sentou-se no meio da calçada. Ao invés de escrever, olhou para os pedaços de vento soprados pelos papéis do chão, e ainda pensou para si mesmo que gostava de ser tão bom com as palavras como as memórias-detritos por reciclar. Disse, pois, nu, incandescente e irritado, com uma folha de papel a chover-lhe das mãos:

Esta é a primeira morte, e o poema da minha vida.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

[SF]* I


AE – Poesia e silêncio são dois conceitos interligados?

TM – A poesia é uma forma de escuta e de atenção. O silêncio é a metodologia de todos os poemas que se escrevem. A grande tentação dos poetas é o silêncio. A poesia exige uma vida tentada pelo silêncio. É uma forma de comunhão. A poesia não quer suprir o silêncio nem explicá-lo.

AE – Então o silêncio é o embrião da poesia...

TM – É embrião e o porto último. É a meta de todos os versos que se escreveram.

AE – Em estado poético voa-se na interioridade das palavras.

TM – Na poesia tenta-se – como se fosse a travessia das águas – atravessar sem ferir o mar. Para que no sossego das águas possamos ver o fundo, mas nem sempre isso é possível.


Entrevista a José Tolentino Mendonça para a Agência Ecclesia,
6 de Fevereiro de 2008


*A secção Silêncio Falado (SF) servirá de janela para outras perspectivas, outras vozes, outras formas de emprestar uma cor àquilo que por si mesmo é límpido, incolor, puro, essencial e a que por aqui se vai dando o nome de poesia. Citações textuais, vídeos, imagens, formas de se sobressair do ruído comum e de nos fazer sentir a tentação primordial, a emergência do ser apesar das sombras.


sábado, 9 de fevereiro de 2008

Ecos


de cada vez que a canção recomeça
o dia dança mais devagar
o braço sobre o disco
os discos onde te apoias e da torre vês que o mundo se faz uma manhã vermelha
sobre os teus pés ou a cama
ou a janela entreaberta com flores num salão de nuvens
o braço a acariciar-te o corpo
ou a dedilhar um pensamento que alguém teve um dia
no final de contas o gira-discos é uma fábrica de banalidades
ouvir uma canção é cometer plágio
tantas vezes quantas te beijo
tenho a impressão que o teu olhar já cá estava ontem
porém duvido que tu já cá estivesses
cada vez mais devagar
o teu rosto a desenhar-se aos meus ouvidos
devagar
um eco de um mar que havemos de conquistar um dia
envelhecer devia ser apenas uma questão de levantar o braço
e percorrer o corpo do poema desde o começo
tocar o corpo tocar o efémero adivinhar o inominável
ver-te pela primeira vez como se só hoje tivesse acordado