quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

[SF]* I


AE – Poesia e silêncio são dois conceitos interligados?

TM – A poesia é uma forma de escuta e de atenção. O silêncio é a metodologia de todos os poemas que se escrevem. A grande tentação dos poetas é o silêncio. A poesia exige uma vida tentada pelo silêncio. É uma forma de comunhão. A poesia não quer suprir o silêncio nem explicá-lo.

AE – Então o silêncio é o embrião da poesia...

TM – É embrião e o porto último. É a meta de todos os versos que se escreveram.

AE – Em estado poético voa-se na interioridade das palavras.

TM – Na poesia tenta-se – como se fosse a travessia das águas – atravessar sem ferir o mar. Para que no sossego das águas possamos ver o fundo, mas nem sempre isso é possível.


Entrevista a José Tolentino Mendonça para a Agência Ecclesia,
6 de Fevereiro de 2008


*A secção Silêncio Falado (SF) servirá de janela para outras perspectivas, outras vozes, outras formas de emprestar uma cor àquilo que por si mesmo é límpido, incolor, puro, essencial e a que por aqui se vai dando o nome de poesia. Citações textuais, vídeos, imagens, formas de se sobressair do ruído comum e de nos fazer sentir a tentação primordial, a emergência do ser apesar das sombras.


sábado, 9 de fevereiro de 2008

Ecos


de cada vez que a canção recomeça
o dia dança mais devagar
o braço sobre o disco
os discos onde te apoias e da torre vês que o mundo se faz uma manhã vermelha
sobre os teus pés ou a cama
ou a janela entreaberta com flores num salão de nuvens
o braço a acariciar-te o corpo
ou a dedilhar um pensamento que alguém teve um dia
no final de contas o gira-discos é uma fábrica de banalidades
ouvir uma canção é cometer plágio
tantas vezes quantas te beijo
tenho a impressão que o teu olhar já cá estava ontem
porém duvido que tu já cá estivesses
cada vez mais devagar
o teu rosto a desenhar-se aos meus ouvidos
devagar
um eco de um mar que havemos de conquistar um dia
envelhecer devia ser apenas uma questão de levantar o braço
e percorrer o corpo do poema desde o começo
tocar o corpo tocar o efémero adivinhar o inominável
ver-te pela primeira vez como se só hoje tivesse acordado