já não há rimas novas a fazer
inevitavelmente esgotaram-se os sons e as sintonias
e possuímos agora toda a ciência
e dominamos todas as línguas dos homens
doravante o mundo será regido pelo caos
luz contra sombra água contra fogo
seremos diletantes eternos em busca de um novo caos
e a nossa hora última será um verso branco
fora de tempo fora de ritmo
breve
pois já não podemos dizer chuva
sem sentir o fragor das vinhas
nem navegar sem passar pelos arcos do templo
o que está bem terá sempre um colo
e a dança acompanhará a nossa mocidade
tudo é previsível
mesmo o que não se vê
teremos sempre vento para nos contar os segundos
montado às costas de uma frase deixada a meio
discurso soluço sufoco nudez revelação
antes oferecíamos o corpo nos altares
segundo leis milenares ou com um punhal de improviso
hoje parece-me que nos vestimos de vermelho por outros motivos
o poema já não sofre nas mãos do poeta
contudo o poeta não sabe já quem é
faz-se de rei nas praças da cidade
mas esta já havia caído séculos antes
muito antes das cavalarias das armadas
antes de haver nomes para as cores do seu manto
quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
a queda
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sábado, 26 de Setembro de 2009
Assis
retomar a queda interrompida por sobre o mundo
inverter o tabuleiro as grades as peças dos sentidos
subir ao derradeiro chão de todas as vertigens
e no último passo antes da verdadeira encarnação
abdicar de tudo menos das raízes dos cabelos
uma seara à espera de asas
e aí sim
fazer silêncio
contemplar as cidades nascidas em plena atmosfera
os jardins suspensos de uma Babilónia por reconciliar
tocar na sua admirável falta de alicerces
pressentir o poder das nuvens que criam palácios e ruínas
que sendo de dimensões várias chegam todos à mesma altura
arremessados contra o seu tecto máximo
que é também o fim e o começo e a verdade
de cada semente em cada pedaço de terra
de cada abraço plantado
neste compasso de espera e de presença
o poeta estende-se sobre o abismo entre um universo e outro
com as mãos abertas cravadas na ânsia do solo
em estado de puro desejo de irrigação
de sangue e de orvalho ocultos sedentos de comunhão
um poeta de pés livres para dançar com o vento
passo a passo para fora do tempo
é o céu
diz a profecia gerada e nascida da ponte
é esta loucura que abre a boca do poeta para embeber a terra
e da árvore de mãos enraizadas e pés alados
surge todo o sonho a noite o dia enfim a criação
e depois da chuva virá sempre o deserto
o segredo que é incêndio e hibernação
o segredo que se torna aurora
sétimo dia
antecâmara da transfiguração
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quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
câmara escura
mas
e quando por mais que digamos o mundo
ele não acontece?
eis-me aqui sentado
o mundo como entreposto dos ouvidos a cabeça entre as mãos nervosas
olho para um rio
digo que o caudal está a encher
mas há outras barragens outras carências energéticas a corromper a nascente
pego numa pedra toco-a acaricio-a lanço-a para longe
ao sentir a sua superfície lisa repetidamente amada
eu vejo
apesar de o rio ter um leito não me saciarei
apesar do caudal não terei um corpo à minha espera
apesar do tempo
apesar
do desejo e das mãos em punho as veias em evidência
as minhas palavras não conhecem outro ruído além do ranger de dentes
talvez com o chamamento encontre outro corpo
outra vocação ainda
talvez de tanto percorrerem uma pele imaginária ou um peito em expectativa
os dedos possam desenhar o rosto a uma página
tal como se desflora um sorriso
entre beijos
ou numa câmara escura
a voz
encontrá-la perfeitamente disposta na moldura
a respirar o mundo a recuperar do êxtase
abraçar o corpo levar o aroma o quarto a febre
ser louco e ser eterno
reconciliar-me com a chuva e com o granizo
abraçar-me faminto às rochas em brasa
saltar de olhos fechados com uma colisão nos meus braços
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terça-feira, 11 de Março de 2008
Renúncia

Do seu exílio, o poeta escrevia, áspera e lentamente, nas paredes cinzentas de cartão defumado que o separavam da cidade:
Este é o primeiro poema da minha vida.
Passando os dedos reciclados pelo vício da casa, dizia a si mesmo que aquelas eram apenas as primeiras janelas antes do quebrar da luz. Diante das muitas páginas rígidas e empilhadas na mesa precoce, abortou o plano indesejado e deixou a arte para o fim. O poeta, de voz em punho e tinta à flor da pele seca, declarou veementemente:
Este é o primeiro poema e a minha vida.
Do seu famoso exílio fabulosamente invejado nos jornais, o poeta batia à máquina para não agredir os transeuntes, que por acaso, só mesmo por embirrância, se tinham colocado a jeito, atravessados pela estrada. O poeta tomou então mais um pouco de café, antes de marcar o duelo seguinte. Como as palavras eram escassas, comprou algumas por atacado e digeriu-as aos poucos, uma letra por dia. O poeta esfomeado mastigava pacientemente as paredes da casa a olhar para o seu prato vazio. A sua dieta impedia-o de consumir interjeições ou sequer preposições. Ao poeta só lhe restavam os artigos e as letras fora do abrigo da lei. E cópulas, muitas cópulas em forma de vogal aberta diante do espanto da matiné. O poeta vestiu-se de vapor, colocou-se na varanda de onde via gigantes ao pôr-do-sol e disse, ousadamente, aos muitos pássaros na praça:
Esta é a primeira vida do meu poema.
Terminou então a sua lenta ruminância que o deixara nu, desceu pelo elevador para a rua inclinada, pegou numa cadeira à espera dos sinos do camião do lixo e de modo muito distraído sentou-se no meio da calçada. Ao invés de escrever, olhou para os pedaços de vento soprados pelos papéis do chão, e ainda pensou para si mesmo que gostava de ser tão bom com as palavras como as memórias-detritos por reciclar. Disse, pois, nu, incandescente e irritado, com uma folha de papel a chover-lhe das mãos:
Esta é a primeira morte, e o poema da minha vida.
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quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008
[SF]* I
AE – Poesia e silêncio são dois conceitos interligados?
TM – A poesia é uma forma de escuta e de atenção. O silêncio é a metodologia de todos os poemas que se escrevem. A grande tentação dos poetas é o silêncio. A poesia exige uma vida tentada pelo silêncio. É uma forma de comunhão. A poesia não quer suprir o silêncio nem explicá-lo.
AE – Então o silêncio é o embrião da poesia...
TM – É embrião e o porto último. É a meta de todos os versos que se escreveram.
AE – Em estado poético voa-se na interioridade das palavras.
TM – Na poesia tenta-se – como se fosse a travessia das águas – atravessar sem ferir o mar. Para que no sossego das águas possamos ver o fundo, mas nem sempre isso é possível.
Entrevista a José Tolentino Mendonça para a Agência Ecclesia,
6 de Fevereiro de 2008
*A secção Silêncio Falado (SF) servirá de janela para outras perspectivas, outras vozes, outras formas de emprestar uma cor àquilo que por si mesmo é límpido, incolor, puro, essencial e a que por aqui se vai dando o nome de poesia. Citações textuais, vídeos, imagens, formas de se sobressair do ruído comum e de nos fazer sentir a tentação primordial, a emergência do ser apesar das sombras.
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