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Acho que o sentido que a nossa existência poderá ter (ou não) passa por esta capacidade que temos de a questionar, de a reinventar, de lhe querermos dar um nome. Diante do silêncio da morte, ou mesmo da efemeridade geral de todas as coisas, ainda sentimos a tentação de falar, de sentir, de criar algo novo, algo que nos ultrapassa. Entre nós e o silêncio, o dever de falar. Vivemos porque temos que viver. Somos rebeldes desde o começo e em cada instante da nossa vida.
Acho que a vida não teria o mesmo interesse nem teríamos a mesma dignidade se deixássemos de nos revoltar, se nos conformássemos com tudo o que nos magoa, afecta, transtorna.
Diz-se que a linguagem é uma forma de nos tornarmos donos das coisas que conhecemos. Nada existe para nós, humanos, se não formos capazes de o nomear. O simples facto de conseguirmos ter consciência do esquecimento último de todas as coisas e de lhe conseguirmos dar um nome nas nossas preocupações e reflexões já indica que somos, de alguma forma, donos do mistério. Donos daquilo que outrora nos desgastava.
Acredito que Sísifo não encarava o seu castigo como algo penoso. A partir de uma certa altura, a consciência de como as coisas eram deverá tê-lo feito aceitar a sua condição e retirar daí o seu próprio sentido para o seu viver. Afinal, a sabedoria não consistirá simplesmente em sabermos como as coisas realmente são, sem máscaras, ilusões ou devaneios?
Diante desta questão que nos desarma quando concluímos que a nossa vida, ou antes, a vida em si mesma, é absurda, não te respondo que a vida ganhará sentido numa futura eternidade, nem com alguma menção a Algo ou Alguém superior. Respondo-te com um elemento que nos é bem interior.
Não existe um sentido para a vida que nos seja dado à partida, como um direito adquirido. Viver e existir não são sinónimos absolutos. Não podemos limitar-nos a agir como os outros animais, apesar da nossa indiscutível e necessária natureza carnal, pois, como referi acima, o facto de nos questionarmos, de sermos rebeldes, de pensarmos, imediatamente distingue-nos dos demais seres, e o consequente livre-arbítrio que nos permite escrever a nossa própria história pessoal não nos deixa afirmar que somos meros escravos dos nossos instintos.
Certo é que não somos intrinsecamente bons nem maus, quanto mais não seja porque todas as morais têm um prazo e um contexto. Enquanto conjuntos de normas, são produtos culturais e produtores de cultura. São tão efémeras quanto nós mesmos. Mas as nossas escolhas, livres e racionais, verdadeiramente esclarecidas (por vezes necessitando de alguns saltos quânticos que porventura confundam a nossa lógica habitual), deverão unicamente escutar a nossa voz interior, respeitar a nossa dignidade enquanto pessoas (que teremos que ir construindo a cada dia). Daí nasce toda a verdadeira ética. "Torna-te naquilo que és", diria Píndaro.
A vida, por ser um mistério, tem valor por si mesma. Apesar do absurdo, é o seu próprio abismo que a torna valiosa.
Quanto a cada um de nós, se não somos nem "bons" nem "maus" por natureza, temos apenas a certeza de que somos imperfeitos e limitados. Essa mesma imperfeição deverá levar-nos a procurar completar o que nos falta junto de outras pessoas, de outros seres humanos desafiados pelo abismo. A rebeldia não nos impedirá de morrer, mas levar-nos-á a algo melhor do que todos os paraísos de inércia em que preferiríamos refugiar-nos.
Nós somos aquilo que fazemos das nossas relações.
Ouvir-nos a nós mesmos, tornarmo-nos naquilo que somos, tudo isso passa pelo Amor. Não um amor abstracto, romanceado, irrealista, um amor reduzido ao sentimento, à paixão, ao entusiasmo passageiro. O Amor age exactamente contra a efemeridade. Contra a mediocridade também. Diante do absurdo, não nos fechamos em nós mesmos, mas somos seres-para-os-outros. Quanto mais não seja para sermos a voz que desperta a multidão do seu sono.
Nunca te esqueças. Diante do silêncio, a maior das tentações é a de falar. Diante do esquecimento, a maior das rebeldias é voltar a escrever tudo desde o começo. Tal e qual como nos foi dito dentro de nós.
5 comentários:
Olá meu lindo amigo fiquei sem palavras ,achei tudo muito lindo mesmo tu es muito especial, que deus te ilumine sempre pela pessoa maravilhosa que tu es e deixo aqui uma frase que eu uso muito comigo...
"Acredito que cada novo dia é melhor do que o que passou; pois afinal é um novo dia;
Acredito que cada amizade nova é uma forma de gostar e aprender um pouco mais de alguém; pq melhor que um ombro amigo?
Acredito de que viver é pura adrenalina; pois para viver é necessário muitos tombos e coragem de enfrentá-los e levantar-se;
Acredito que em vez de vingar-se é melhor perdoar; pois "amar" é um dom bem maior do que a vingança;
Acredito que muitas vezes chorar é bom, fortalece os pulmões;
Acredito no amor, na amizade, no perfume das flores pq posso sentir ambos; posso sentir o amor dentro de mim, o carinho pelos amigos e sentir (hummmmmm) o perfume das flores;
Acredito que sonhar é bom mas tornar esse sonho realidade é mais ainda, com fé em tudo que faz, em tudo que podemos fazer e ajudar alguém fazer...
beijos Si!!!
Caro amigo, não podia partilhar mais contigo as tuas palavras, nem acrescentar muito mais.
Obrigado pela partilha, e pelo modo como escreveste, com direcção, com clareza, com sinceridade!
Desejo que a tua vida corra com mais verdade e luminosidade!
A felicidade está mesmo dentro de nós, não depende de nada, só depende de nós próprios nos permitirmos a ela. Será essa a nossa natureza, uma constante luta para a libertação, uma (re)união com a Natureza (Deus?)...
Um abraço!
Simone e Gato Xara, muito obrigado pelas vossas amáveis palavras. No silêncio, a maior das tentações é mesmo o dever de falar. Espero ter conseguido tocar-vos na alma. Continuem a passar por cá.
Do autor do blog.
De Profundis... conheces o livro com o mesmo nome de oscar Wilde?
Amigo Daniel, de facto não conhecia esse texto de Oscar Wilde, mas obrigado pela referência... Agora que tenho algumas noções sobre aquilo de que se trata, terei todo o interesse em ler...
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